O direito à beleza em educar

Há muitos e muitos anos, fui apresentada a Rubem Alves pela minha mãe, professora da educação especial no nosso município. Foi um momento inesquecível para mim: alguém falando de amorosidade, ludicidade, encanto ao educar. Ele também aparecia em entrevistas na televisão e minha mãe amava. Muitas vezes eu parava para ouvir.

Nessa época, eu nem sabia que iria ser professora de educação infantil, mas achei encantadora a ideia de educar com valores além dos já conhecidos. nos anos 1980. Rubem fez parte de minha existência como professora e formadora por toda a vida, e ainda hoje me surpreende. Esse encanto era que ele garantia o direito à beleza em educar, valor pautado em princípios estéticos da sensibilidade, que estão nas diretrizes nacionais brasileiras. Rubem era a beleza em ação.

Hoje, pensando o espaço na Educação Infantil para além de um mero cenário passivo, o compreendemos como um coprodutor das aprendizagens e um reflexo da concepção de criança da escola. O conceito do espaço como terceiro educador defende que o ambiente físico atua como um agente ativo no aprendizado e foi originado na abordagem italiana de Reggio Emilia por Loris Malaguzzi. A ideia é que o espaço educa tanto quanto os professores (primeiro educador) e a interação com os colegas (segundo educador). Nesse espaço nada é colocado ao acaso, antes, há que se considerar a beleza da estética sensível e compartilhada entre os sujeitos.

Essa ideia se estende ao projetar um espaço de uma escola infantil como um compromisso social, cultural e político, pois afeta a real experiência das crianças considerando as interações, a ludicidade e a criatividade. Projetar a escola é projetar um espaço de vida para sujeitos que podem fazer escolhas, decidir e identificar limites, ser protagonista e autor de ideias, comentar processos e viver o conhecimento com a estética de conhecer e aprender.

Nessa perspectiva, o espaço é definido como linguagem que fala de acordo com as concepções, é percebida e interpretada pelas pessoas e constitui o pensamento. O espaço é percebido como um lugar de pertencimento.

Dá-se valor à iluminação natural e elementos visuais, olfativos, sonoros, táteis no chão, no teto, nas paredes porque constroem identidade e história dos habitantes.

As crianças, desde muito cedo aprendem a confiar em si mesmas, a traçar mapas para a sua orientação emocional, social e cognitiva, como diz Carlina Rinaldi e todos os seus percursos e processos de aprendizagem passam pela relação com o contexto cultural, o ambiente. O ambiente físico e psicológico oferecem a segurança para o desenvolvimento integral, sustentando o eu e o nós. A beleza como direito educacional passa pelo direito de todos aprenderem e poderem compartilhar o seu conhecer.

A criança tem direito a deixar suas marcas nos espaços, pois a própria vida oferece desgastes e passagens do tempo, o que nos leva a pensar que as práticas exageradamente assépticas, da ordem higiênico-sanitária, podem atropelar essa perspectiva da passagem humana nos lugares, pois, limpos e esvaziados demais não permitem a comunicação, o legado, o diálogo.

Os espaços podem acolher, promover comunicação, interação, segurança e liberdade de agir.

Rubem Alves falava da escola como lugar para despertar a sensibilidade, o espanto diante do mundo e o prazer estético. Para Maria da Graça Souza Horn, organizar o espaço na Educação Infantil é um ato pedagógico e estético de profundo respeito à infância, o que conflui com as ideias de Rubem. Mais do que gerenciar salas e pátios, trata-se de transformar espaços físicos em “lugares” de vida, onde a autonomia, a pluralidade de linguagens, a sensorialidade e a identidade das crianças sejam as verdadeiras protagonistas do cotidiano escolar.

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